Fósseis de trilobitas de 500 milhões de anos trazem novas descobertas

Rodolfo Teles
By Rodolfo Teles 5 Min Read

Cientistas encontraram os fósseis mais bem preservados da classe até hoje

Novos fósseis de trilobitas — artrópodes que viveram no mar há cerca de 500 milhões de anos — descobertos por pesquisadores no Marrocos são os fósseis mais bem preservados da classe já registrados.

Os fósseis foram encontrados no Alto Atlas, nas cordilheiras marroquinas, e a descoberta está sendo chamada pelos cientistas de “Pompeia dos trilobitas“. Os animais foram fossilizados sob as cinzas de um vulcão pré-histórico da região, ficando extraordinariamente bem preservados, de maneira semelhante às vítimas do monte Vesúvio, que atingiu a cidade italiana de Pompeia no século 1.

Os trilobitas viveram durante o período Cambriano, entre 500 e 400 milhões de anos atrás, em mares rasos que recobriam boa parte do mega continente Pangeia. Eles se assemelhavam a baratas, recobertos com um exoesqueleto de quitina, e os maiores podiam chegar a 70 ou 80 centímetros de comprimento.

A pesquisa foi publicada na revista Science na quinta-feira, 27 de junho. A equipe foi liderada por Abderrazak El Albani, geólogo da Universidade de Poitiers e originalmente do Marrocos.

“Como cientista que trabalhou com fósseis de diferentes idades e locais, descobrir fósseis em um estado tão notável de preservação em um ambiente vulcânico foi uma experiência profundamente estimulante para mim”, disse Abderrazak. “Acredito que os depósitos piroclásticos [locais devastados por erupções vulcânicas] devem se tornar novos alvos de estudo, dado seu potencial excepcional para capturar e preservar restos biológicos, incluindo tecidos moles delicados.”

“É esperado que esses achados levem a descobertas significativas sobre a evolução da vida em nosso planeta Terra”, acrescentou o geólogo.

Fósseis espantosamente bem conservados
Como eles contam com um exoesqueleto duro e calcificado, fósseis de trilobitas são frequentemente encontrados em bom estado, tornando esse um dos animais marinhos já extintos mais bem estudados por cientistas — mais de 20 mil espécies de trilobitas já foram registradas por paleontólogos.

No entanto, a compreensão dos animais tem sido limitada pela escassez de preservação de seus tecidos moles nos fósseis.

“Eu estudo trilobitas há quase 40 anos, mas nunca senti que estava olhando para animais vivos tanto quanto eu sinto com estes [fósseis]. Eu já havia visto a anatomia dos tecidos moles de trilobitas, mas a preservação 3D destes é realmente espantosa”, disse Greg Edgecombe, paleontólogo do Museu de História Natural que tabém fez parte do estudo.

“Um resultado inesperado do nosso trabalho é descobrir que as cinzas vulcânicas em ambientes marinhos rasos podem ser uma mina de ouro para a preservação excepcional de fósseis”, acrescentou Edgecombe.

Como os trilobitas encontrados no Marrocos estavam envoltos em cinzas quentes do vulcão na água do mar, seus corpos foram fossilizados muito rapidamente à medida que as cinzas se transformaram em rocha, preservando detalhes que geralmente se perdem em fósseis (assim como ocorreu com os habitantes de Pompeia após a erupção do Vesúvio).

Novas descobertas
Com o uso de tomografias computadorizadas e modelagem virtual de raios-X, os pesquisadores já fizeram algumas novas descobertas sobre os trilobitas com esses fósseis.

Eles encontraram apêndices na borda da boca dos trilobitas com bases curvas em forma de colher que eram tão pequenos que não foram detectados em fósseis menos perfeitamente preservados.

Os cientistas pensavam anteriormente que os trilobitas tinham três pares de apêndices na cabeça atrás de suas longas antenas, mas ambas as espécies marroquinas neste estudo mostraram que havia quatro pares.

Além disso, um lobo carnudo cobrindo a boca, como um lábio, foi documentado pela primeira vez em trilobitas.

“Os resultados revelaram em detalhes requintados um agrupamento de pares de pernas especializadas ao redor da boca, nos dando uma imagem mais clara de como os trilobitas se alimentavam. Foi descoberto que os apêndices da cabeça e do corpo tinham uma bateria de espinhos densos voltados para dentro, como os dos caranguejos-ferradura de hoje”, explicou um dos co-autores Harry Berks, da Universidade de Bristol.

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