Restaurante com sócio da família ou de fora: O que muda

Amelie Valtier
Por Amelie Valtier 5 Min de leitura
Fredy da Silva Gonçalves Bento

Quando o empresário Fredy da Silva Gonçalves Bento (também conhecido como Fredy Restrito) desenvolveu o Hina Restaurante em parceria com a irmã, entrou num tipo de sociedade que costuma ser vista, ao mesmo tempo, como a mais segura e a mais arriscada que existe. Segura porque a confiança já vem pronta. Arriscada porque, se o negócio vai mal, o prejuízo chega também à mesa de domingo.

Na gastronomia, essa tensão fica mais exposta do que em outros setores. O restaurante exige presença diária, decisões rápidas e convivência intensa entre quem cuida da cozinha, do salão e do caixa. Comparar a sociedade em família com a sociedade entre desconhecidos ajuda a entender o que cada modelo resolve e o que cada um deixa em aberto.

Confiança pronta, papéis nem sempre definidos

Dois irmãos abrem um restaurante. Um assume o salão, o outro a cozinha, e ninguém escreve quem paga fornecedor, quem negocia aluguel ou quanto cada um retira por mês. Seis meses depois, os dois acham que trabalham mais do que o outro.

Com um sócio de fora, esse roteiro é menos provável, porque a falta de intimidade obriga a colocar tudo no papel desde o início: participação, funções, retirada e regra de saída. Na família, a confiança existente dispensa essa conversa, e é justamente essa dispensa que abre espaço para o mal-entendido. No percurso de Fredy Restrito, a sociedade familiar não foi o primeiro contato com o setor: o Restaurante Capitães veio antes, o que costuma dar a quem empreende uma noção mais clara do que precisa ser combinado.

Por que a margem estreita do restaurante amplia o conflito?

O restaurante trabalha com pouca folga. Uma pesquisa da Abrasel divulgada no início deste ano indicou que cerca de 35% dos bares e restaurantes do país operam no vermelho. Fredy Restrito salienta que, com uma margem assim, qualquer decisão sobre dinheiro vira decisão sobre sobrevivência: retirar ou reinvestir, trocar o cardápio ou segurar o preço, contratar ou apertar a escala.

Aqui os dois modelos se comportam de forma oposta. O sócio externo tende a cobrar números e a reagir rápido quando o resultado não aparece, às vezes rápido demais. O sócio da família tende a tolerar meses ruins por mais tempo, o que pode salvar o negócio numa fase difícil ou adiar uma correção necessária. Nenhum dos dois é melhor por natureza; o risco está em não saber qual tendência predomina na própria sociedade.

O que a sociedade em família oferece e o contrato não compra

Há vantagens que nenhum acordo formal reproduz. Irmãos que cresceram juntos compartilham referências, valores e uma disposição de atravessar os meses fracos sem que um abandone o outro. Num setor em que a rotatividade de sócios é alta, esse compromisso de longo prazo pesa.

A importância que Fredy Restrito atribui à família e às origens ajuda a explicar a escolha de dividir um projeto gastronômico com a irmã. Para ele, esse vínculo aparece como parte da construção do negócio, e não como detalhe afetivo: trabalhar com quem compartilha a mesma história dá ao restaurante uma identidade que sócios recém-apresentados levariam anos para formar.

Contrato entre irmãos protege mais a relação do que o negócio

A comparação leva a uma conclusão menos óbvia do que parece. A melhor sociedade em família não é a que dispensa as regras do sócio de fora, mas a que as adota sem constrangimento: acordo de sócios, retirada definida, reunião periódica com os números na mesa e uma regra clara para o caso de alguém querer sair.

Formalizar não significa desconfiar. Para Fredy da Silva Gonçalves Bento, significa tirar do terreno pessoal as decisões que, cedo ou tarde, vão aparecer. Quando o combinado está escrito, a divergência sobre dinheiro continua sendo uma discussão de negócio, e o almoço de domingo continua sendo apenas um almoço de família.

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