Radioterapia do câncer de mama pode ser concluída em menos sessões sem perder eficácia

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez 7 Min de leitura
Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues

Por muitos anos, o protocolo padrão de radioterapia depois de uma cirurgia conservadora de câncer de mama exigia entre 25 e 30 sessões diárias, de segunda a sexta-feira, ao longo de cinco a seis semanas consecutivas. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues destaca uma mudança consolidada nos últimos anos que reduziu significativamente esse tempo: o hipofracionamento, técnica que aplica doses um pouco maiores de radiação em cada sessão, permitindo concluir o tratamento em 15 sessões ou até menos, sem perda de eficácia comprovada por múltiplos estudos.

Oito ensaios clínicos randomizados já demonstraram segurança e eficácia equivalente entre o protocolo hipofracionado e o tratamento convencional mais longo, resultado que levou a Sociedade Brasileira de Radioterapia a publicar um consenso nacional definindo critérios claros sobre quais pacientes são boas candidatas a esse tratamento mais curto. Entender como essa técnica funciona e por que ela representa ganho real de qualidade de vida sem comprometer a segurança do tratamento ajuda a explicar uma das mudanças mais relevantes da oncologia radioterápica recente.

Como é possível reduzir o número de sessões sem comprometer o resultado do tratamento?

A lógica por trás do hipofracionamento está em ajustar a dose diária de radiação para um valor mais alto, compensando matematicamente a redução no número total de sessões, de forma que a dose biológica efetiva entregue ao tecido mamário permaneça equivalente à do protocolo convencional mais longo. Esse cálculo depende de um parâmetro técnico específico da radiobiologia, que descreve como diferentes tecidos respondem a variações no fracionamento da dose de radiação recebida ao longo do tratamento.

Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, o tecido mamário e o tipo de célula tumoral mais comum no câncer de mama respondem de forma particularmente favorável a esse tipo de ajuste, o que explica por que essa técnica se consolidou primeiro nessa especialidade antes de começar a ser adaptada para outros tipos de câncer, como o de próstata, que também vem incorporando protocolos hipofracionados com base em lógica semelhante.

Um estudo francês recente trouxe alguma confirmação adicional sobre a segurança dessa abordagem?

Sim, um grande estudo apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Medicina Oncológica em 2024, coordenado por pesquisadores do Institut Gustave Roussy, acompanhou 1.221 mulheres que já haviam passado por cirurgia de câncer de mama, incluindo casos com linfonodos comprometidos, e encontrou eficácia equivalente entre radioterapia hipofracionada e o tratamento convencional mais longo, mesmo em um subgrupo de pacientes com perfil de risco mais elevado do que os estudos anteriores costumavam incluir.

Na avaliação do Dr. Vinicius Rodrigues, esse tipo de resultado é particularmente importante porque amplia o grupo de pacientes que podem se beneficiar do tratamento mais curto, incluindo casos que, até recentemente, ainda eram tratados preferencialmente com o protocolo convencional mais longo por cautela diante da ausência de evidência robusta específica para esse perfil de maior risco.

Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues
Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues

Além da conveniência de menos deslocamentos, existem outros benefícios reais dessa técnica?

Sim, e esse é um ponto frequentemente subestimado: estudos mostram que o hipofracionamento também está associado à redução do endurecimento do tecido mamário depois do tratamento, menor toxicidade na pele da região tratada e menor dose de radiação incidental sobre o coração, especialmente relevante em tratamentos do lado esquerdo, onde a proximidade anatômica com o órgão exige atenção redobrada durante o planejamento da radioterapia.

Para o ex-secretário de Saúde, Dr. Vinicius Rodrigues, esses benefícios adicionais deveriam pesar tanto quanto a própria conveniência logística na decisão de ampliar a oferta desse protocolo dentro do sistema público de saúde, já que menos sessões também significam menor custo operacional para os serviços de radioterapia, permitindo atender mais pacientes com a mesma capacidade instalada de equipamentos, historicamente escassos em algumas regiões do país.

Toda paciente com indicação de radioterapia é candidata ao protocolo hipofracionado?

Não, e essa distinção é justamente o que motivou a criação do consenso brasileiro específico sobre o tema: determinadas situações clínicas ainda carecem de evidência suficientemente robusta para recomendação ampla do hipofracionamento, o que exige avaliação individual de cada caso pelo radio-oncologista responsável, considerando características específicas do tumor, extensão da cirurgia realizada e outros fatores de risco pessoal da paciente.

O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que reconhecer essas exceções, em vez de aplicar o protocolo mais curto de forma indiscriminada para toda paciente, é o que garante que essa evolução tecnológica seja incorporada com o mesmo rigor científico que validou sua segurança nos casos já bem estabelecidos pela literatura médica atual.

Esquemas ainda mais curtos, com poucas sessões, já são realidade no tratamento do câncer de mama?

Estudos de fase inicial já testam protocolos ainda mais reduzidos, com cinco sessões distribuídas ao longo de várias semanas, mostrando resultados preliminares promissores, embora ainda insuficientes para se tornarem padrão estabelecido de tratamento. Essa fronteira de pesquisa representa a continuidade natural do caminho já percorrido pelo hipofracionamento tradicional, buscando reduzir ainda mais o tempo total de tratamento sem comprometer a segurança já demonstrada nos protocolos atualmente consolidados.

A evolução do hipofracionamento na radioterapia do câncer de mama mostra como pequenos ajustes técnicos, fundamentados em rigorosa pesquisa clínica acumulada ao longo de anos, podem transformar significativamente a experiência de tratamento de milhares de mulheres, reduzindo semanas de deslocamento diário sem abrir mão da eficácia que definiu, originalmente, a radioterapia como parte essencial do tratamento conservador do câncer de mama.

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