Bares fazem preconceitos caírem por terra em aglomerados de Belo Horizonte

Rodolfo Teles
By Rodolfo Teles 9 Min Read

Os bares, em Belo Horizonte, são muito mais do que lugares para tomar uma cerveja gelada com os amigos, apreciar um bom tira-gosto e colocar a conversa em dia. Os estabelecimentos comerciais têm sido também uma maneira de apresentar para muitas pessoas os aglomerados e assim romper o preconceito existente. 
 
A capital mineira, segundo a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), tem cerca de 120 mil domicílios nos 218 assentamentos de vilas, favelas e conjuntos irregulares (ZEIS). O aglomerado da Serra é o maior deles e é composto pelas vilas Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora Aparecida, Santana do Cafezal, Novo São Lucas, Fazendinha, Chácara, e Marçola.
 
O Bar e Choperia do Safadinho foi criado por Gilson Pereira dos Santos, de 54 anos, justamente com o objetivo de mostrar o aglomerado para além da criminalidade. “Eu queria abrir um bar aconchegante porque as pessoas têm preconceito com a favela. A favela não é do jeito que pensam. Aqui tem muita gente boa”, afirma.
 
O projeto se tornou realidade em outubro de 2019 quando as portas foram abertas na rua Binário, número 180, na Vila Santana do Cafezal. De lá pra cá, o bar funciona diariamente recebendo pessoas tanto do aglomerado, quanto de outras áreas da cidade. “Eu tento trazer as pessoas de fora para que possam conhecer o que, de fato, é o aglomerado. Tem dado certo. Os clientes que vêm ficam impressionados com a nossa organização enquanto moradores da vila e curtem demais”.
 
Gilson convida os clientes pelo celular mesmo. Por fazer parte de um projeto social que ajuda pessoas em situação de rua, o comerciante tem vários contatos, o que facilita o trabalho. “Aqui é um ambiente saudável. Ligo para as pessoas e falo que vou fazer um churrasquinho com pagode”, conta. Nos dias de jogo do Brasil na Copa do Mundo, até o telão é colocado para os clientes.
 
Quem mora na região curte a experiência proporcionada pelo comerciante. “O buteco do Safadinho faz você se sentir numa região nobre de Belo Horizonte de tão organizado que é e fica no meio da favela. Todo mundo vai pra lá. Os decks que ele fez são muito aconchegantes. As pessoas ficam na beirada da rua. É como se fosse a Savassi. Para nós do aglomerado é bom, pois mostra que estamos ricos, mas de cultura, não de dinheiro”, destaca o professor de Jiu Jitsu e morador da Serra, Éder Rufino, de 41 anos.  
 
No Bar do Safadinho a regra é clara, conforme conta o proprietário. “O respeito é em primeiro lugar. Não abro mão disso. Quem vem aqui adora. Elogia, me parabeniza pelo ambiente familiar. Você tem que dar um jeito de agradar o público. Aqui vem muita gente do aglomerado também e o atendimento é o mesmo que o oferecido para as pessoas de outros bairros. Todo mundo gosta de ser bem tratado. O dinheiro que vem de fora é o mesmo de quem tá aqui dentro”.
 
A integração entre moradores do aglomerado e de pessoas vindas de outros bairros é um dos pontos que mais agradam Gilson. “As pessoas daqui do aglomerado ficam felizes por terem a oportunidade de conversar com as outras, de tocar nelas. Quando você vê o sorriso das pessoas e elas batendo papo agradável entre si, é muito bom”, destaca o comerciante.

Pesadelo chegando ao fim

O estereótipo de que só há criminalidade nos aglomerados, por anos foi o “pior pesadelo” de Rufino. Agora, aos poucos, ele vê o cenário sendo mudado já que bares como o do Safadinho ajudam as pessoas a conhecerem o espaço. “Quando recebemos pessoas de outros bairros de BH temos o turismo sendo fortalecido e nosso comércio. Estamos sendo bem vistos em vários sentidos. Isso ajuda a quebrar o estereótipo que durante anos foi nosso pior pesadelo”, diz.
 
“Sempre soubemos que nunca fomos só aquilo que era mostrado na TV. Aqui também tem gente importante. Não posso deixar de ressaltar o quão importante é as pessoas de fora vindo pra cá. Os moradores ficam felizes. As pessoas se arrumam. Os aglomerados estão muito bem organizados internamente. Não estamos perdendo para ninguém”, complementa. 
 
Quem também observa uma mudança de visão sobre o aglomerado é Gilson. Morador da Serra há 17 anos, ele relembra sobre os questionamentos carregados de preconceito que ouvia. “Sempre vinham as perguntas: ‘você mora na Serra?’, ‘não é perigoso?’. Eu sempre respondia dizendo que era preciso entrar aqui para ver o outro lado da história. Aglomerado não é violento como pensam. É exatamente por isso que trago pessoas para terem a oportunidade de conhecerem a Serra. E te falo uma coisa: elas ficam encantadas”.

Resgate histórico
Na Pedreira Prado Lopes, Wederson Bernardino da Cruz de Paula, de 36 anos, tem o Bernardino Gourmet. O prato principal da casa é o chopp, peixe, torresmo de barriga e o feijão tropeiro. Assim como no Bar do Safadinho, os jogos do Brasil na Copa estão levando uma multidão de pessoas para o aglomerado.

“As melhores músicas e os melhores sabores estão na favela. As pessoas [de fora] chegam meio travadas, mas logo recebem um cumprimento e um abraço e já começam a relaxar e a tirar fotos. Querem ir no alto do morro e assim as portas vão se abrindo”, conta.

Os eventos realizados nas partidas do Brasil são regularizados junto à prefeitura. “Está lotando com média de 1.100 pessoas. Estamos fazendo pagode e funk. Tudo acaba estourando às 22h30. Limpamos a rua e deixamos tudo organizado”, comenta.

O comerciante, além de continuar atraindo pessoas de fora do aglomerado, pretende agora desenvolver um projeto com os moradores locais visando resgatar a história do aglomerado e assim possibilitar, cada vez mais, a ocupação do espaço público. “O funk é o principal movimento musical da nossa região e também temos o samba e o bolero que fazem parte do público mais antigo. Estamos tentando resgatar a tradição do nosso aglomerado para que fique vivo cada vez mais em todos nós que aqui vivemos”.

A ideia do comércio de Wederson era ser mais uma opção de lazer para os moradores do aglomerado, mas acabou se tornando também alternativa para outras pessoas. “Na pandemia, fizemos delivery para atender os moradores daqui já que não podiam sair de casa. Agora com a retomada, mesmo o bar não abrindo sempre, temos frequentadores de outros lugares”.

Ampliação para melhor atender
“Você tem que ter o público e a simpatia”. É por conta disso que Gilson pretende ampliar o Bar do Safadinho para conseguir atender, cada vez mais e melhor, os clientes. “O bar não é grande, por isso, quero expandi-lo fazendo o bar mais top do aglomerado para que as pessoas se sintam seguras”, comenta.

Nesses três anos de caminhada no comércio, Gilson afirma que vem conseguindo atingir o objetivo traçado quando pensou em abrir o bar. “Estou atingindo o que pensei e quero crescer mais na estrutura para trazer mais gente de fora pra cá”. Questionado se pretende mudar um dia do aglomerado da Serra, ele não pensa duas vezes para responder. “Eu nunca pretendo mudar daqui porque é onde você consegue se aproximar das pessoas e conversar com elas”, finaliza.

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