‘Não me dava bem com a família’, diz primeira a ser acolhida na Casa LGBT de BH

Rodolfo Teles
By Rodolfo Teles 8 Min Read

“Chegou um momento em que eu tive que vir pra cá porque eu não me dava bem com a minha família”. O relato é da estudante de moda Priscilla Tomaz, uma jovem trans de 18 anos. Ela foi a primeira a ser abrigada na Casa de Acolhimento LGBT de Belo Horizonte, inaugurada nesta segunda-feira (12), data em que a capital completa 125 anos. Para ela, este é um recurso importante e que poderá auxiliar essa minoria sexual que se encontra em constante situação de vulnerabilidade. “É um lugar apenas para LGBTs, ou seja, teremos um atendimento especializado. É diferente de outros abrigos convencionais, em que a gente tinha que explicar como as coisas deveriam acontecer”, aponta.

A adolescente chegou na casa na última quarta-feira (7), após um ano de acompanhamento no Centro de Referência LGBT. Priscilla Tomaz foi vítima por diversas vezes de LGBTfobia, principalmente no ambiente doméstico. “Tudo isso começou com a minha transição, a minha mãe não queria aceitar. Ela não me chamava pelo nome social. A nossa relação era muito conturbada”, relembra.

Antes de chegar ao espaço de acolhimento, a jovem dividia a sua rotina entre a casa da mãe e a do pai, que são separados. Ela também possui um irmão, com quem não tem mais contato. Esse ambiente familiar, marcado pela não aceitação e também por conflitos, foi o que motivou a jovem, ainda aos 17 anos, a sair de casa pela primeira vez. “Eu fui para o Conselho Tutelar e de lá me encaminharam para um abrigo feminino. Fiquei lá por uns cinco meses em processo de reconstrução familiar. E quando eu voltei para a casa da minha mãe, não deu certo. A relação se esfriou novamente”, conta a estudante.

Foi então que a adolescente procurou o Centro de Referência LGBT, que é responsável por destinar essa minoria sexual em situação de vulnerabilidade e insegurança habitacional para os serviços públicos. São atendimentos como os de saúde e educação, que buscam assegurar os direitos para população.

No caso de Priscilla, além do acompanhamento psicológico, ela foi encaminhada para um curso profissionalizante de moda. A qualificação, que é remunerada, sustenta o sonho da estudante, que espera aproveitar os dias na casa e sair do espaço já com o seu próprio negócio. “Quero começar a fazer roupas, criar a minha marca e vender”, revela a jovem.

A casa


A Casa de Acolhimento LGBT foi inaugurada durante a manhã desta segunda-feira (12), data em que é celebrado o aniversário de 125 anos de Belo Horizonte. O evento contou com as presenças do prefeito Fuad Noman (PSD) e da secretária municipal de assistência social, segurança alimentar e cidadania, Rosilene Rocha.

“Espero que possamos dar para as pessoas que vierem pra cá um ambiente agradável e seguro, onde eles possam desfrutar a vida como qualquer um de nós, sem medo. A casa está aberta, pronta, bonita e conservada. Tá tudo novo, panela, na área de café”, disse o prefeito Fuad Noman (PSD) durante a festividade. A Casa foi uma promessa feita por Noman durante a Parada do Orgulho LGBTQIA+, realizada no dia 6 de novembro. Na ocasião, o chefe do executivo anunciou que este seria um presente para o aniversário da cidade.

O espaço vai funcionar no bairro Floresta, na região Leste da capital. A casa poderá acolher até 20 pessoas por um período de até seis meses. Serão aceitas pessoas LGBTS que se encontram em situação de vulnerabilidade, como aquelas que estão nas ruas. “É a prefeitura dizendo pra cidade e cidade dizendo que Belo Horizonte tem uma cultura de paz e que vamos fazer de tudo para proteger as pessoas em situação de vulnerabilidade”, disse a secretária municipal de assistência social, segurança alimentar e cidadania, Rosilene Rocha.

Hoje, cerca de 5.000 pessoas encontram-se em situação de rua, segundo a Prefeitura de Belo Horizonte. A capital, no entanto, não consegue quantificar o número de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais que estão nesta situação. Isso porque os levantamentos já realizados pela administração municipal não buscavam distinguir quantas dessas pessoas fazem parte dessas minorias. No entanto, a fim de desenvolver políticas públicas voltadas a esse grupo, o Censo da População de Rua 2022, feito pela prefeitura em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), passou a incluir perguntas para identificar esse recorte da população. Essas respostas deverão auxiliar no desenvolvimento de projetos como os da casa de acolhimento.

O encaminhamento para a casa

Para ter acesso ao espaço, a população LGBTQIA+ em situação de insegurança habitacional deverá passar, primeiro, pelo Centro de Referência LGBT. É nessa etapa que será realizado o atendimento psicossocial, e a partir dele será desenvolvido um plano de atendimento individualizado.

“É importante que essas procurem o Centro de Referência para que a gente consiga definir qual serviço dentro da rede de apoio ela precisa”, explica o coordenador do Centro Referência LGBT de BH, Gustavo Adolfo de Magalhães. Segundo o coordenador, é feita uma triagem para definir quais pessoas serão encaminhadas para a casa de acolhimento. “Isso vai ser feito em casos de violência, de violação de apoio. É preciso uma avaliação”, conta..

O Centro de Referência é um equipamento público, da Prefeitura de Belo Horizonte, cujo objetivo é apoiar e proteger pessoas que sofreram algum tipo de violação ou violência cuja motivação tenha sido sua orientação sexual. O espaço, inaugurado em 2018, oferece diversos serviços gratuitos à população LGBT, como atendimento psicossocial, acolhimento de vítimas de preconceito e violência, grupos de apoio, atividades culturais e de lazer e espaços para reuniões de articulação política dos coletivos de gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais.

Exigências do Serviço
Ser uma pessoa maior de 18 anos em situação de vulnerabilidade e risco social em decorrência de violência LGBTfóbica;

Ser acompanhada pelo Centro de Referência LGBT ou pelos serviços de média e alta complexidade da Assistência Social da Prefeitura de Belo Horizonte.

O que é LGBTFobia?
Por LGBTfobia entende-se valores, meios de exclusão, hierarquias e relações de poder que possuem o objetivo de impor e naturalizar a heterossexualidade como única orientação sexual legítima e da imposição da cisgeneridade como norma de gênero, resultando em violência – física, verbal e/ou psicológica –, discriminação e violação de direitos.

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